As dores que trago em meu peito, vêm da minha pele. Mais especificamente, da minha melanina.
As dores que trago em meu peito, vêm da melanina que constitui a minha pele e do órgão que habita o centro das minhas pernas.
Desde que sou dita mulher negra, sinto doer. A dor de não ser bonita. A dor de não se amar. A dor de ter meu corpo violado, tocado, olhado. A dor de não ter o corpo desejado. A dor de não ser ouvida. A dor de ser e não poder deixar de ser. A dor de não amar ser. A dor de não amar. A dor de não ser amada. A dor da solidão. A dor da solidez. A dor de não me ver. A dor de ver as minhas semelhantes tendo o caminho da dor. A dor dos gritos. A dor da mão querendo passar pelos meus cachos. A dor do alisante. A dor dos livros de história. A dor de não saber sobre a África. A dor de não ter o rosto da Europa. A dor de ser seguida. A dor de não ter o dinheiro aceito. A dor de não ter dinheiro. A dor de não poder falar do meu jeito. A dor do incômodo de andar pela Zona Sul. A dor do cabelo amarrado pra trás. A dor da depressão. A dor dos tapas. A dor de não ser apresentada para a família. A dor dos partos. A dor de ver um filho morrer. A dor de ver parentes serem mortos. A dor de ser abandonada. A dor de não receber visitas na prisão. A dor do miolo de pão impedindo a menstruação. A dor dos abortos. A dor na coluna das diárias. A dor de ter um quarto nos fundos da casa. A dor de não ter casa. A dor de não ser respeitada. A dor de ter que mostrar o diploma. A dor de não ter amigas. A dor de cabeça de tanto chorar. A dor de não poder chorar. A dor de não poder doer.
Só uma mulher negra sabe o que é ser uma mulher negra.