Foi quando eu percebi que o mundo não girava ao meu redor, ou talvez girasse.

Ao fechar a porta, olhei para as árvores.
Elas estavam lá, estaticamente paradas.

Eu desci a rua, passei em frente a uma lojinha para animais.
O dono estava lavando a loja.

Passei por um bar. Havia um cara sozinho, bebendo.
Ele me olhou inteira, mas eu fingi que não vi.

Passei em frente a um colégio, onde tinha um porteiro parado.
Ele jogou o resto do cigarro na porta do colégio, na rua mesmo.

Mais em frente, vi que o cruzamento estava com um transito bom.
Nenhum carro estava tentando passar o outro.

Atravessei e andei até a loja de rações.
A loja já estava quase fechando.

Pedi meio-quilo de ração canina e meio-quilo de ração felina.
O vendedor me contou sobre o seu domingo.

Paguei a caixa e agradeci ao vendedor que me atendeu.
Ele quase não me ouviu.

Andei até o mercado, onde vi o preço do queijo.
O queijo estava caro.

Atendida por um moço muito educado e simpático, fui conduzida até a bancada de queijos já cortados.
Peguei meu queijo e trocamos agradecimentos.

Fui para o caixa e paguei o queijo e o pão que também havia pego.
A moça do caixa não respondeu ao meu ‘obrigada’, quando eu deixei o caixa.

Fiz o percurso de volta.

Andei até o cruzamento.
Estava engarrafado e com um caminhão gigante na faixa de pedestre.

Passando entre os carros, continuei caminhando até chegar em frente ao colégio.
O porteiro já estava com outro cigarro na boca.

Passei pelo bar, novamente. O moço continuava sentado, bebendo.
Novamente fui olhada e pensei em dizer “se continuar me olhando, te arranco os olhos com minhas unhas”, mas ignorei.

Passei pela loja para animais, de novo.
O dono ainda a lavava. Agora, sem camisa.

Reparei na minha vizinha sentada na calçada, sozinha.
Solitária, pensei o quão triste ela poderia estar.

Segui até o meu portão e dei uma última olhada nas árvores.
Elas ainda estavam lá, estaticamente paradas.

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"Curiosa, abri o envelope. De dentro, tirei uma foto que, mesmo borrada, era possível ver um homem fumando. O homem tinha um aspecto cansado e sério. Meio sujo e com um cigarro na boca.
Sem entender, olhei dentro do envelope, descobrindo um bilhete. Escrito a próprio punho, ele dizia 'Essa foto foi depois de alguns goles de vinho. No meu apartamento, bêbado de tanto fumar, eu nem sabia o que fazer com a câmera. Mas antes dessa foto, eu já tinha esquecido a minha idade com um alto número de cerveja e já nem sabia que porra eu tava usando, mas eu já estava tendo algumas alucinações. Nem sei como essa foto aconteceu. Mas sei que foi logo em seguida ao meu porre de vodka no acampamento dos meus amigos. O cheiro de maconha já estava me enjoando, só lembro de alguém ter chegado em mim e me perguntado se podia tirar uma foto minha. Eu respondi: faça o que quiser, contanto que me tire daqui. Depois disso eu dormi. E sonhei com alguém tirando uma foto minha, mas eu estava abraçando uma mulher que eu não lembro o nome. O mais estranho foi ter acordado no quarto da minha irmã, abraçado à garrafas de conhaque e algum pó branco jogado no chão. No meio do pó, tinha essa foto. Inclusive, essa foto foi tirada naquele encontro com aquela menina doida, que me deixou alto com Martinis e me beijava com hálito de Marlboro vermelho. Ela disse que me achava bonito, que eu merecia uma foto. Usou um filme vencido porque dizia ser mais artístico. Saiu essa foto que, com toda certeza, foi logo após aquela noite que você me beijou, fechou a porta e saiu. E você não voltou mais. Desde aquilo, eu só lembro de ter pego uma garrafa na geladeira, mas não lembro o que continha nela. Desde que você foi embora, eu não sei o que bebo, não sei o que fumo, não sei onde estou e nem quem está comigo. E eu sei que o que me deixa mal não são as substâncias no meu corpo. O que me deixa mal é você. Eu fiquei bêbado de amor. Doentemente viciado no teu ser.Minha casa é teus braços. Eu te procuro nessas porras que eu uso, mas minha droga é você. E não adianta fugir, não vai ter porre que cure a ressaca que eu sinto. Você ter saído foi como acordar bêbado, perdido e com dor de cabeça.'.
O envelope não havia nomes, ou referências. Olhei a foto de novo e reconheci o homem. Mesmo sem identificações, aquele bilhete era como vê-lo nu. Lembrei de coisas que não devia ter lembrado.”

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